Bem Viver

Escrito por: Rosamaria de Medeiros Arnt e Paula Pereira Scherre
Criado em: 29 de outubro de 2018
Última modificação: 12 de novembro de 2018

O Bem Viver é um macroconceito1  que trata de uma cosmovisão2 de raízes comunitárias não capitalistas, sustentada em convivência cidadã na diversidade e harmonia com a natureza. É um ponto de partida, caminho e horizonte, que surge como oportunidade de construção coletiva e plural de uma nova forma de vida, de pensamento, de ação, de ser e de estar no mundo. Não traz receitas prontas e acabadas, mas é um convite à reflexão, ao diálogo e à criação conjunta.

Tem suas origens na prática, no viver dos povos indígenas do mundo, mais especificamente, dos povos indígenas andinos. Sem significar o retorno idealizado ao modo de vida dos povos originários, inspira-se em princípios3, que ainda hoje são vividos em comunidades indígenas ao redor do planeta. Por exemplo, traz em si um conceito de comunidade, no qual, segundo Boaventura Santos (citado por ACOSTA, 2016, p.74), “ninguém pode ganhar se seu vizinho não ganha”; reconhece a Natureza como sujeito de direitos e com limites biofísicos; considera a relacionalidade e a complementariedade entre todos os seres vivos – humanos e não humanos, identificando-se com uma visão biocêntrica4, que podemos entender como uma “cultura do estar em harmonia” (ACOSTA, 2016, p.90); sinaliza uma ética da suficiência5, ampliando as noções de progresso e desenvolvimento para além de direção única, especialmente vinculada ao crescimento econômico.

O centro das atenções e das ações não deve ser apenas o ser humano, mas o ser humano vivendo em comunidade e em harmonia com a natureza. Faz uma crítica e investigação à essência, ao cerne do desenvolvimento, do extrativismo, do capitalismo, do neoliberalismo, em síntese, das bases que estruturam a civilização ocidental, as relações econômicas e de “desenvolvimento” atuais, nas quais nós do Brasil e, outros países, estamos imersos. Quando pensamos em desenvolvimento articulado ao bem viver, é preciso que as alternativas, as escolhas sejam feitas de forma a não colocar em risco a vida das próximas gerações. Para isso, o diálogo entre diferentes grupos ou individualidades, a necessária revisão de conceitos à medida que vamos concebendo ações e proposições. Revisar, revisitar, na escuta e na partilha, perceber, intuir, contemplar cada ideia, cada proposta, cada ação para compreender implicações mais profundas estão na essência de uma alternativa ao desenvolvimento como conhecemos.

Como diz Alberto Acosta (2016, p.27), “é necessário construir relações de produção, de intercâmbio e de cooperação que propiciem suficiência – mais que apenas eficiência – sustentada na solidariedade.” Observamos que ao pesquisarmos sobre Bem Viver, aparecem palavras e expressões como solidariedade, matriz comunitária, complementaridade, reciprocidade, harmonia, conduta ética, plurinacionalidade, pluralidade, biocentrismo, sociocentrismo. Aglutinar tantos conceitos complexos numa única definição seria por si só a tessitura de uma ideia que se expande a cada vez que a formulamos. Talvez nisto resida sua maior força: a possibilidade de um conceito transcendente a si mesmo, que tenha em sua base a referência inalienável ao cuidado com a vida, em suas diferentes formas.

Assim, apresentamos este verbete como dito acima, como um ponto de partida, mas que vai se tornando caminho. Sendo caminho, mostra-se um horizonte para onde nossos passos são guiados. Sendo horizonte, inspira-nos a ser sempre ponto de partida… e assim nos conduz a seguir em frente, enquanto simultaneamente damos voltas, pulando para cá e acolá, não-linearmente, quem sabe voando um pouco também.

Este verbete tem como base a obra O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos, de Alberto Acosta (2016), lida, dialogada, meditada, capítulo a capítulo. Acesse a introdução deste dicionário, para saber mais sobre as motivações, origens e contextos da escrita deste verbete e criação deste dicionário.

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Glossário
(ordem dos itens conforme aparece no verbete)

1Macroconceito: conceito-mestre de uma ideia formado por vários outros conceitos. De acordo com Emílio Roger (1999, p. 92), um macroconceito é “um espaço de conceitualização complexa”, ou seja, composto por vários conceitos simples, que se associam, interagem e se tornam complementares.

2Cosmovisão: de acordo com o site do dicionário Michaelis (2018), cosmovisão é “Sistema pessoal de ideias e sentimentos acerca do Universo, concepção do mundo”.

3Princípios: são idéias e conceitos que inspiram outras ideias, ações, em nosso ser e estar no mundo. São pontos de partida, nos remetem a origens, começos. Em se tratando de escolhas, podemos pensar no melhor ponto de partida, ou em pontos de partida que se relacionem de forma dinâmica, aberta e processual, permitindo sempre novos arranjos. Se os princípios são referências consideradas fundamentais em uma caminhada ou construção, seja individual ou coletiva, as ações baseadas neles levam em consideração o inacabamento humano e do conhecimento e a necessidade de reflexão, contemplação num processo de avaliação constante e contínuo. (ARNT, 2007)

4Visão biocêntrica: a partir dos autores Ruth Cavalcante e Cézar Wagner Goís (2015), compreendemos visão biocêntrica, como aquela que tem a vida, em seu entendimento mais amplo, como centro do pensar e do agir. Requer a conexão com a sacralidade da vida, a ser reverenciada, cuidada, respeitada. Ressaltamos uma pergunta que Ruth nos faz nas formações: “a sua ação no mundo está gerando vida?”.

5Ética da suficiência: ética que tenha por base a solidariedade e a sustentabilidade não somente para os indivíduos, mas para a comunidade. Baseada na sustentabilidade, considera o que realmente é necessário, desvencilhando-nos de ideias ou processos de acumulação material, competitivos e excludentes que prejudiquem qualquer um dos integrantes do sistema complexo no qual vivemos e convivemos: indivíduos, espécies, Mãe-Terra/cosmos.

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Referências

ACOSTA, Alberto. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. Tradução de Tadeu Breda. São Paulo: Autonomia Literária. Elefante, 2016. 264 p. Disponível em: <https://rosaluxspba.org/wp-content/uploads/2017/06/Bemviver.pdf>. Acesso em: 22.out 2018.

ARNT, Rosamaria de Medeiros. Docência transdisciplinar: em busca de novos princípios para ressignificar a prática educacional. São Paulo: Programa de Pós-graduação em Educação: Currículo, PUC/SP. Tese de doutorado, 2007. Disponível em <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=85252>. Acesso em: 12.nov 2018.

CAVALCANTE, Ruth; GÓIS, Cezar Wagner de Lima (Orgs). Educação Biocêntrica: ciência, arte mística, amor e transformação. Fortaleza: Edições CDH, 2015. 312p.

MICHAELIS. [Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa], Cosmovisão. Editora Melhoramentos. 2018. Disponível em: <https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/cosmovis%C3%A3o/>. Acesso em: 5.nov 2018.

ROGER, Emílio. Uma antropologia complexa para entrar no século XXI: chaves de compreensão. In: PENA-VEGA, Alfredo; NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do (Orgs.). O pensar complexo: Edgar Morin e a crise da modernidade. 2.ed. Rio de Janeiro: Garamond, 1999. 204p.

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